22.6.10

Centro de Memórias: trabalho em progresso



( O Caso do Museu do Trabalho Michel Giacometti )

Sessão de trabalho com voluntários, a uma terça-feira, no Centro de Memórias, com Edite Barreira. socióloga que colaborou na fase inicial do projecto
Visionamento de fotografias do Arquivo fotográfico Américo Ribeiro








Os trabalhos da Memória Social, centrados no método biográfico e os caminhos do Património imaterial, são a trama que escolhemos para substantivar a ideia de museu. As dimensões sociais da memória, sua construção e representação, são a espessura do tecido expositivo. A especificidade do fazer museológico na contemporaneidade assemelha-se a uma renda fina, a um entrelaçar meticuloso de  fios que escorrem do tempo, a uma admirável renda de muitas agulhas, trabalhosa e complexa, feita de abertos e fechados (de memórias e esquecimentos). As repetições e as simetrias são a cadência que a perpetua, a gramática ritmíca que lhe dá corpo. Um corpo fluído, uma peça única, circunstancial. É sempre possível, com os mesmos fios, criar novos padrões, novas composições. Feita com preceito, feita como deve ser, esta renda de memórias e esquecimentos é sempre uma admirável criação,  uma teia de espantos que expande o imaginário, gera valor e alimenta a inesgotável reserva de saberes, valores e crenças da comunidade.

Abandonamos aqui a metáfora em que nos fomos enleando para, de forma pragmática, falar dos exemplos práticos. O Centro de Memórias do Museu do trabalho Michel Giacometti, imbuído da forte convicção de que tudo nasce do trabalho de terreno, desenvolveu ao longo de duas décadas, formas de registo e transmissão de memórias, especialmente memórias ligadas ao trabalho e às cadeias operatórias de fabrico em meio industrial e oficinal, mas este projecto só começou a "ganhar corpo" há cerca de quatro anos, no momento em que começámos a estar apetrechados com as ferramentas práticas e teóricas para o efectivar. Quando pudemos sistematizar conceitos, nomear as distintas fases, identificar os processos e reunir os meios necessários para rotinar e articular entre si. projectos - âncora que foram emergindo das dinâmicas criadas entre o museu, as comunidades locais, as Universidades, Institutos e Centros de Estudo.

Passemos então à descrição de alguns desses projectos- âncora e das metodologias que ensaiámos:

"Varinos, nós ?" , foi o primeiro desses ensaios, realizado em parceria com o departamento de Antropologia da Universidade Nova de Lisboa. Neste caso reinventou-se uma ferramenta clássica da Antropologia, o parentesco, enquanto rede nuclear de transmissão de memórias  no seio de cinco famílias de origem murtoseira, que engrossaram o lastro migratório de Setúbal nos primórdios da industria conserveira.  Este aturado trabalho de campo resultou numa exposição com o mesmo nome e na edição dos documentos visuais que lhe serviram de suporte, meio privilegiado de interlocução, com os diversos públicos e os membros das famílias que integraram a rede de informantes. Os objectos expostos, escolhidos criteriosamente, resultaram de uma negociação e representam o que dentro de cada família simboliza o legado murtoseiro dos varinos que, no final do séc XIX, vieram para Setúbal, em demanda de trabalho. São ícones de uma cultura, objectos "falantes", que se constituem  patrimónios pela acção das pessoas da comunidade e dos processos museológicos e/ ou expositivos que lhe conferem discurso, numa dinâmica relacional de redescoberta de sentidos. Este trabalho revela-se primordial para a compreensão da missão do museu e das ferramentas com que este opera. As pessoas da comunidade são implicadas nos processos de identificação e patrimonialização dos bens materiais e materiais que compõem o caldo cultural.  Mais do que "recurso",tornam-se "agentes" da acção museológica. O museu ganha novas dimensões de comunicação/ acção, expande-se. O colector é assim, colectivo e a decisão de patrimonializar é partilhada, discutida desde a sua génese. Os objectos, quando voltam para casa das pessoas, para as famílias, já não são os mesmos. Voltam, porque o objectivo do museu não é acumular objectos "mudos" em reserva, mas antes conferir-lhes uma nova vida, novos usos culturais  no seio da própria comunidade, criando redes e cumplicidades em torno da ideia de património e do valor estruturante da memória.





Rosa Almeida, anciã de uma das famílias de " varinos ", na visita à exposição, onde ela própria nos mostra a fotografia da mãe que segura cerimoniosamente na ponta dos dedos.




 Varinos, nós ?
Como musealizar um sentimento ...


“O objecto só tem existência no gesto que o torna tecnicamente eficaz
( A . Leroi – Gourhan)


Mas então que objectos eram esses "oferecidos" em exposição ? Que gestos ou, mais precisamente, que gestualidades, os tornam significativos?  Para que narrativas nos remetem ? Que subtilezas lhes conferem emoção? Como musealizar um sentimento... eis a questão.

O desafio era gerar conhecimento e suscitar inquietação relativamente a uma categoria identitária – " varinos", marca indelével na paisagem humana de Setúbal, aparentemente cristalizada num beco histórico. Ora, tendo como lastro o aturado trabalho de campo realizado por Marta Ferreira e Ricardo Lousa, finalistas de Antropologia da Universidade Nova de Lisboa, em estágio académico no Museu do Trabalho Michel Giacometti, procurámos transpor para uma linguagem museográfica, um dos aspectos mais interessante deste estudo: “ um sentimento varino “, algo difuso, de difícil definição, desgastado pelo tempo, de que nos falam algumas pessoas, de várias gerações, ligados a famílias de origem murtoseira que migraram para Setúbal desde meados do século XIX, em demanda de trabalho nas pescas e nas conservas de peixe.
Esta categoria identitária, tantas vezes patenteada num pitoresco “ bilhete-postal” carece de redefinição. Carece de perguntas para as quais raramente encontramos respostas nas palavras ditas. Hoje, quando perguntamos aos nossos informantes, o que é e como se distingue um varino, reportam-se a coordenadas de espaço/tempo – alguém que habita algures entre as Fontainhas e o Bairro Santos, que tem ascendentes na Murtosa, que vivia de certa maneira, segundo certos princípios... hoje, muito difíceis de identificar, quase impossíveis de materializar expograficamente.
A questão está em que os tempos mudaram e a ideia idealizada do pescador “bilhete postal” de camisa de xadrez e de boné, também se alterou. Sem estes sinais exteriores, urge questionar que auto-representação têm os mais jovens desta suposta identidade varina, que imagem têm os setubalenses, em geral, do tão aclamado pescador de Setúbal de origem murtoseira.
Pergunta-se mesmo à laia de provocação – constituiria motivo de interesse etnográfico, pretexto fotográfico, bandeira turística ou tema patrimonial, um jovem pescador que de manhã navega no rio e à tarde na internet? Alguém aparentemente indistinto, que usa calças “ Lois”, polos “ Lacoste “ e óculos “ Ray Ban ” cabe no nosso imaginário de pescador? Em que cartografia da memória se inscreve este homem? Em que paisagem humana o fantasiamos? Que futuro lhe vaticinamos? E ele, como se sentirá neste tempo ambíguo?
Esta personagem, paradigma de muitas outras, não é uma ficção, tem uma existência real na comunidade marítima local, sintetizada na história de vida do elo mais jovem de uma das cinco famílias de varinos por nós estudadas.
Por imposição dos tempos, por mimetismo social, em resposta a novas necessidades e funcionalidades da vida moderna, este pescador de novo tipo, cortou as amarras com os estereótipos, perdeu definitivamente os sinais exteriores de exotismo, ditados pelo vestir, pelo falar e pelo estar. Habita um outro espaço na cidade e no imaginário, portanto é dentro de si próprio que temos que ir descobrir o tal “ sentimento varino “que vem à baila, quando nos fala da infância no bairro, dos magotes de rapazes que percorriam a pé a cidade, dos tempos passados com o pai na pesca, da ritualização dos costumes, do bater das cartas nas tabernas. É alguém que se sente filho do mundo contemporâneo, membro da comunidade global, mas ciente e seguro de uma origem determinada que o engrandece e âncora a um passado marcante. Falou-nos do alto dos seus trinta e cinco anos de idade, da enorme vontade de deixar tudo (actualmente é mestre de rebocadores), e seguir as pegadas do pai, investir na velha embarcação da família, uma barca chamada “ Alice dos Santos “ (nome da avó), vezeira nas Festas da Tróia e zarpar, mar dentro, a capturar chocos, lulas, linguados, etc., seguindo a tradição da família, sem abdicar da companhia do moderno PC portátil que o atira para as velozes ondas do mundo, quando as águas do rio estão mais paradas e o peixe teima em não aparecer.
Assim, voltando à inquietação: como musealizar um sentimento ..., neste caso “um sentimento varino “, optámos por pedir a cada família que escolhesse um objecto significativo da herança varina, com o intuito de apresentar cinco objectos com “ estória “. Surgiu um problema – homens e mulheres não convergem nessa escolha. Então mudámos as regras e combinámos expor dois objectos por cada família, um escolhido pelos homens e outro pelas mulheres. Também cada família retirou do álbum as fotografias mais significativas para expormos no museu. Tudo foi legendado com a participação dos nossos interlocutores e na sua forma de contar. Mas alguns, sobretudo os mais velhos, não sabem ler... assim filmámos, para acesso visual, o que nos disseram sobre os respectivos objectos, as significações e gestualidades associadas. Então, foi muito interessante descobrir o que, nem sempre, as palavras explicam. A exemplificação gestual do uso de um simples xaile preto de merino, com franjas de seda, guardado há cerca de noventa anos, no seio de uma das mais antigas famílias, mostra-nos que este assume distintas formas de se fazer ao corpo, consoante a ocasião e a disposição. Uma linguagem simbólica subtil, provavelmente um traço da identidade varina (a confirmar em estudos comparados), reconhecido entre as mulheres da comunidade, passado de geração em geração, num vendo/fazendo quase mudo, que se vai entranhando. Uma memória singular, sedimentada nos gestos : - “o xaile para o dia-a-dia”, caído pelo corpo sem artifícios ; “o xaile para festa”, alegre, descaído sobre os ombros; “o xaile para a missa” e o “xaile para sentimento “ que, em sinal de respeito ou de luto, tapa a cabeça e aconchega a dor.

Os objectos nesta exposição foram apresentados como fragmentos de um "relicário"de família, mote para desfiar estórias, contornos de um “sentimento varino “ que se vai transformando.




Outro ensaio, outro caso que aqui trouxemos como exemplo de um projecto nesta área, é o da exposição "13" , que constituiu o acto público de apresentação e discussão dos objectivos e metodologias do Centro de Memórias, neste caso tendo por base fotografias do Arquivo Municipal Américo Ribeiro que, tal como o museu do Trabalho Michel Giacometti, integra a Divisão de Museus da Câmara Municipal de Setúbal.









"13 Fotografias, 13 Estórias, 13 Filmes"



"Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar."

Carlos Drummond de Andrade



As fotografias foram o rastilho que incendiou a memória. Poderiam ter sido cem ou meia dúzia, mas como tudo tem um princípio, decidimos apostar no 13, esconjurar a crença no infortúnio, provocar o estremecimento, registar o encontro entre o instante aprisionado na imagem e as imagens instáveis, conflituantes, que a memória vai construindo e reconstruindo dentro de um certo tempo, referenciado a um certo espaço; ouvir falar de desencontros (que são pontos negros na História), descerrar o sofrimento, criar cumplicidades, reconhecer o trabalho e as lutas que traçam a diferença, sorrir às hesitações, aos lapsos e “esquecimentos” que a memória tece; jogar na metáfora do número a ambiguidade de sentidos que atravessam a imagem (também as alegrias e as suas celebrações), captar na singularidade de cada ponto.de.vista, o estranho ímpar que é todo o ser humano. Este projecto, catalisa o espanto, individual e colectivo, que assenta na descoberta de uma cidade nunca vista, sobre certos pontos.de.vista. Trata-se de criar com os parceiros e voluntários, uma nova e sofisticada cartografia do património, subjectiva, plural e diversa, reconstituída a partir das pessoas e dos seus mundos. O que aqui se apresenta é uma infinitésima parte do que temos recolhido, mas fica o exemplo, a síntese, o mote para a criação de um centro de memórias que registe metodicamente o que está para além das evidências. O que nos torna ímpares, estranhamente diferentes, entre iguais.

Este projecto está em progresso. A exposição tornou-se itinerante, circulando por espaços formais e informais de exposição, como bares, escolas, espaços municipais, colectividades, entre outros.

Os materiais resultantes da recolha em curso, vão engrossando a base de dados sobre património imaterial e Memória Social e constituem um forte incentivo para estudos nesta área. As parcerias e protocolos que temos vindo a realizar com universidades publicas e privadas, como a Faculdade de Belas Artes de Lisboa e o IADE-Instituto de Artes Visuais, DesignMarketing, permitem articular, teoria e prática, criando redes intergeracionais muito activas de prospecção e inventariação do património. Juntam-se à mesma mesa, pessoas com diferentes competências, diferentes vivências, diferentes perspectivas sobre os "usos" sociais destes bens da comunidade.



Acervo documental acessível

Este projecto de recolha e registo de memórias orais teve como ponto de partida as fotografias de Américo Ribeiro, arquivo municipal que faz parte do património cultural e artístico de Setúbal.

Para conseguirmos chegar a esta síntese, apresentada sob a forma de exposição e filme, foi necessário um longo e intenso trabalho de retaguarda, que teve início em Outubro de 2007 e que continua a decorrer. Até ao momento, foram trabalhadas 398 imagens, das quais 94 versam o Vitória Futebol Clube; 196, a cidade e as pessoas; 27, as fábricas de conservas e 81, a Batalha das Flores, entre outras festas e ritos. Neste percurso, recolheram-se histórias de vida, memórias, criaram-se afectos e gerou-se conhecimento. Constituíram-se redes interpessoais envolvendo os museus e os diferentes grupos na comunidade, contribuindo para atenuar as barreiras sociais e intelectuais que ainda hoje inibem algumas pessoas de entrar nos museus e aceder a bens culturais e patrimoniais, que são pertença de todos. Com este trabalho buscamos a aproximação entre a comunidade, os museus, os patrimónios e aproveitamos a irrepetível oportunidade de recorrer a informantes que foram contemporâneos de acontecimentos fotografados por Américo Ribeiro, tornando-os narradores da sua própria história.

A valorização dos saberes e experiências de vida dos membros da comunidade, sistematizados em forma de documentos acessíveis aos públicos e investigadores, permite-nos acrescentar aos espaços museológicos uma outra dimensão de pesquisa, baseada na escuta e no compromisso com os cidadãos, humanizando o leque de serviços dos museus e os conteúdos do património imaterial.
Este tipo de trabalho agencia (traz para a ribalta), os mais velhos, facto que constitui uma enorme mais-valia para toda a comunidade e para eles próprios. Estas pessoas, na sua maioria reformadas, podem dar um tempo precioso à pesquisa. A questão está em identificar interesses e necessidades, discutir os objectivos e as respectivas metodologias de trabalho. É um trabalho que comporta uma rotina, no caso concreto sessões semanais, à terça-feira de manhã.  Os voluntários acompanhados por técnicos do Arquivo fotográfico Américo Ribeiro e do museu, vão visualizando e comentando fotografias antigas, previamente seleccionadas, a partir de temáticas que têm a ver com a cidade, as alterações na paisagem urbana, os ofícios, as festas, as casas, as ruas, entre outras, que permitam reconstituir modos de vida, sistemas de valores e representações que configuram episódios e acontecimentos que marcaram a vida das pessoas e da cidade. Este precioso (meticuloso) trabalho tem-nos permitido constituir uma extensa base de dados, com centenas de entradas, legendas alargadas das fotos que são também uma expressiva galeria de narrativas visuais situadas. Lugares mentais que ficam registados (fichados) em módulo de escrita e imagem, para memória futura, com o regozijo dos seus coautores. A vontade de rigor e o prazer em corresponder é tal que estes pesquisadores da comunidade, organizam-se em pequenos encontros de esplanada de café, ou em colectividades, para tirar dúvidas e rever matéria, nem que para tal tenham que passar horas a fio na Biblioteca Municipal e/ou nos Arquivos, a confirmar datas e a confrontar conclusões. è também um trabalho terapêutico, é como voltar a estudar, é estar vivo.




Tratamento das fotografias realizado por Bruno Ferro, técnico de fotografia e por Maria José Madureira, voluntária no Arquivo Américo Ribeiro.



Uma outra área que reportamos de primordial importância tem a ver com as memórias da resistência, caminhos e des.caminhos que muitas famílias locais foram obrigados a traçar para enfrentar a ditadura. Trata-se de um trabalho sensível, de intenso recorte político, que carece de exaustiva pesquisa e respeitosa escuta. Parte destas memórias, já afloradas na exposição "13", antes citada, estão a ser recolhidas e sistematizadas para memória futura. São uma espécie de exorcismo sobre uma parte da nossa História que teima em manter-se recolhida num ilusório apaziguamento. São memórias difíceis, mas também heróicas que merecem ser contadas e re.contadas, sobre vários pontos de vista. Os relatos recolhidos são sínteses individualizadas da História deste país, amargamente vividas por famílias da comunidade, que desaguam no mar imenso da luta dos povos pela liberdade e pelos direitos humanos que não podem, não devem, ficar suspensos numa espécie de limbo de silêncio, cativos do medo.








Cartografias da Memória, deu nome a uma Tarde Intercultural, realizada em Novembro de 2009, no Museu do Trabalho, em Setúbal, com o objectivo de discutir alguns projectos - âncora, em Portugal, Espanha e Brasil, que se ocupam do Património Imaterial e da Memória Social, como eixo estruturante de acção museológica. Esta designação remete para a necessidade imperiosa de mapear os lugares, as instituições e as imagens que ancoram as memórias e lhes conferem lastro. Também serviu para discutir metodologias de recolha, tratamento e divulgação de estórias de vida que constituem exemplos vivos de resistência. Este evento, em que participaram museólogos e técnicos de Património, portugueses e estrangeiros, foi realizado em parceria com a Associação Abril e contou com a presença de " Memória Média ", uma exemplar plataforma virtual de projectos e estudos sobre oralidade, cultura, memória e identidades, disponível em http://www.memoriamedia.net/
Este projecto é avalizado pelo IELT, Instituto de Línguas e Literaturas Tradicionais, da Universidade Nova de Lisboa.


Nª Srª do Rosário de Troia
Uma festa de devoção




Para memória futura. Festa de Nª Srª do Rosário de Troia, círio marítimo, Agosto de 2007



A imagem de Nª Sª do Rosário de Troia a ser colocado no barco que a transportará à outra margem, em Agosto de 2007, ano em o Museu recebeu recebeu o equipamento de registo de imagem e som



Outro projecto que estamos a desenvolver há cerca de seis anos é o estudo sobre a Festa de Nª Srª do Rosário de Tróia, um dos únicos círios marítimos em Portugal. Esta festa de Verão, em pleno Agosto, marca o ciclo anual das pescas.  A Festa de Tróia, constitui a celebração de referência da comunidade varina de Setúbal, ligada umbilicalmente ao Museu e ao bairro que o circunda.  O edifício, sede do museu, ele próprio uma antiga fábrica de conservas de peixe, simboliza o que fisicamente resta desta industria. As memórias e testemunhos recolhidos ao longo destes anos, remetem para o sistema de representações, ritos e crenças que formam a matriz identitária da comunidade e a base do trabalho museológico, o seu " Caderno de campo virtual ".

Ao longo destes anos de trabalho de campo, fomos progredindo nos meios de registo e no âmbito da própria investigação. No primeiro ano, partimos para o terreno como observadores, livres de qualquer forma de registo, o objectivo era apenas estar com as pessoas, participar nas tarefas mais elementares da festa, acompanhando para tal a comissão organizadora e seguindo os passos. Foi um ano de entrosamento e escuta silenciosa (cerimoniosa). Nos anos subsequentes, de 2006 a 2009, após várias sessões de trabalho e encontros realizados no museu, entre famílias de maritimos, de Setúbal e Murtosa, começámos a recolher histórias de vida e filmámos, em diferentes fases, cerca de 17 horas de sequências e episódios que têm a ver com os processos de implantação da festa, as sucessivas adaptações, as reacções e negociações com os promotores do complexo turístico Troia Resort. Para além de corresponder à imperiosa necessidade documentar e discutir estes processos, procuramos incluir os actores na acção, implicando a comunidade na realização de exposições, na recolha de informação e nos projectos de cooperação entre famílias que estavam separadas, em alguns dos casos há quase um século. Existem muitos tios, avós , primos, cunhados, entre outros, que tinham perdido o rasto. Este caminho de reencontro é muito forte. A festa está rejuvenescida, no Verão, em Agosto, é na festa que se encontram muitas das famílias que têm parentes nos Estados Unidos, nomeadamente em New Bedford. A relação espaço tempo, os usos sociais desta celebração a sua continuidade e/ou adaptação aos novos modelos é um dos desafios deste estudo. Com os materiais de filmagem captados, foram realizados dois filmes (dois documentos visuais) de referência deste trabalho, que passam várias vezes no museu, em contextos pré-definidos e também em reuniões familiares, na medida em que a comissão de festas tem cópias que usa nestas circunstâncias.

Este trabalho, está em progresso, longe de estar finalizado, embora tenha sido pontuado, ao longo destes anos com vários momentos de exibição e reflexão, sempre com a participação de membros da comunidade, estudantes, fotógrafos (nomeadamente Sérgio Jacques), jornalistas, investigadores sobre a temática das festas de marítimos ao longo da Costa portuguesa e dos círios.

A festa de Nª Srª do Rosário de Tróia é um dos projectos-ancora do Centro de Memórias e um extraordinário reservatório de estudo.


Vitoria Futebol Clube 100 anos _ o primeiro da República



Maria Miguel Cardoso, antropóloga da equipa do Museu do Trabalho Michel Giacometti, pivot neste projecto do Centro de Memórias, na sede do Vitória Futebol Clube, confrontando in loco elementos observados com os testemunhos dos voluntários Rogério Carvalho (à direita na imagem) e Raúl Gamito, antigos dirigentes do Clube centenário



Actualmente o Centro de Memórias está a trabalhar no projecto de investigação sobre o Vitória Futebol Clube, instituição icónica na cidade que comemora este ano um século. Um clube que nasceu em 1910, a 20 de Novembro, no esteio republicano. Neste caso concreto,  voltámos a trabalhar o riquíssimo manancial de fotografias do Arquivo Municipal Américo Ribeiro, em cooperação com o grupo de voluntários, eles próprios antigos dirigentes do VFC.
"100 anos, 100 fotos", foi o lema para este trabalho que começou há cerca de meio ano, num desafio contínuo e persistente de olhares sobre os diversos ângulos das imagens e os lances que a memória registou muito para além do tempo fotográfico e do limite visual aparente das quatro linhas da fotografia. O reportório de estórias meticulosamente registadas, sob orientação da antropóloga Maria Miguel Cardoso,  constitui a matéria prima, da exposição " Vitória de Setúbal 100 - O Primeiro da República", patente na feira de Sant`Iago em Setúbal, em pleno verão.


A equipa: redes, cumplicidades e articulações





A equipa do Centro de Memórias do Museu do Trabalho Michel Giacometti, articula-se transversalmente com outras áreas do museu, nomeadamente com o Centro de Documentação, que trata e disponibiliza os documentos visuais; a área de exposições e publicações e o serviço educativo.

Deste trabalho no terreno têm resultado parcerias informais com associações locais, centro social, paróquia, assim como protocolos com universidades, institutos e outros museus, em Portugal e no estrangeiro, sendo disto exemplo o protocolo que acabámos de firmar com o Museu de Sibiu na Roménia, igualmente interessado no estudo das memórias e das identidades, trabalho referenciado, de recorte antropológico, em alguns aspectos convergente com o do Museu do Trabalho Michel Giacometti.






A dimensão Social e política da Memória e do Património


A mudança de paradigma relativamente à noção de memória e aos usos sociais do património, dá-se nem tanto por via da distinção, em nosso entender meramente operatória, entre património material e imaterial, mas sobretudo através da consciência crescente de que cabe à sociedade tomar como referência patrimonial as pessoas e suas vinculações à memória e identidade. As decisões sobre
Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, uma das vozes mais respeitadas no campo da historia social e património cultural, convidado para a conferência de abertura do VI Seminário Nacional do Centro de Memória da Unicamp, em 2009, Campinas (Universidade Estadual), afirmou que o campo dos valores culturais não pode ser tratado como um mapa com fronteiras demarcadas, rotas seguras e pontos de chegada precisos, lembrou que “Estamos perante uma arena de confronto, um campo eminentemente político, no sentido da gestão compartilhada, onde há o debate, o consenso, o dissenso e o conflito."
referido em http://www.unicamp.br/unicamp/divulgacao/2009/10/15/ulpiano-meneses-atenta-para-mudanca-do-papel-do-estado-na-preservacao-do-patri


Na verdade, não existem patrimónios inócuos nem "estórias" de um só sentido, todo este campo da memória social e do Património Imaterial é fluído e assumidamente polissémico,  na maior parte das vezes conflituante, daí que só faça sentido trabalhar a noção de património em rede e a várias vozes, na lógica de uma construção permanente, onde o contraditório ressalte, pois é aí que reside a vitalidade do sistema e o seu fulcro criador.
Quantas "cidades" há na cidade ?





Resumo

O Centro de Memórias, formalmente apresentado no início de 2009, aquando a exposição "13 fotos, 13 estórias, 13 filmes", é hoje uma área-chave do Museu do Trabalho Michel Giacometti. Os projectos fortemente alicerçados no trabalho de terreno, são a base deste Centro de Memórias e as parcerias que dele emergem, a rede que o sustém. Neste artigo abordam-se projectos iniciados há quatro anos, como é o caso de "Varinos, nós?", uma inquietante deriva sobre a construção de categorias identitárias, com recurso ao parentesco e ás genealogias familiares. Outro projecto designado "Cartografias da memória" remete para lugares e imagens que são âncora de memórias da resistência. A "Festa de Nª srª do Rosário de Tróia", o círio marítimo, que o museu acompanha há cinco anos nas suas múltiplas transformações e adaptações, constitui outra das áreas de estudo e observação, amplamente registadas no "Caderno de campo virtual" que temos vindo a criar e a partilhar através do "Memória Média", em cooperação com o IELT, Instituto de línguas e Literaturas Tradicionais, da Universidade Nova de Lisboa. Finalmente, refere-se o projecto "100 anos, 100 fotografias", revisitação  dos 100 anos do clube mais emblemático de Setúbal: o Vitória Futebol Clube.

Em suma

O Centro de Memórias visa ampliar o campo audiovisual do espaço e da memória e a produção social da subjectividade, criando um acervo documental acessível, ancorado em dinâmicas activas de inventário.   



Palavras-Chave

Memórias, Identidades, narrativas, diásporas, territórios, lugares, cartografias, inventário, participação





Bibliografia, artigos de referência e plataformas online




Memória e cultura material: documentos pessoais no espaço público, Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, Revista Estudos Históricos, Vol. 11, No 21 (1998), (p. 89-103), consulta online em:




CONNERTON, Paul. Como as sociedades recordam. Oeiras, Celta Editora, 1993.



LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas, Editora Unicamp, 2006.


MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista. Nova Série, São Paulo, v. 2, jan./dez. 1994.

MAYRAND, Pierre, Parole de Jonas: essais de terminologie de la Muséologie Sociale. Cadernos de Sociomuseologia, ULHT- Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, nº31. Lisboa, 2009

NORA, Pierre. Entre memória e história. A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, dez. 1993.

PAIS, José Machado, Sociologia da vida Quotidiana. Teorias, Métodos e Estudos de Caso. Imprensa de Ciências Sociais, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2002




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Equipamentos usados na captação e tratamento de imagem:

1 Máquina de Filmar Sony DCR-VX 2100 Semi-professional
1 Máquina Fotográfica Pentax K10D

2 IMAC 1TB / MacOSX 10.5.8.        




Este projecto, tutelado pela Câmara Municipal de Setúbal,  foi apoiado pela Rede Portuguesa de Museus na aquisição de equipamento de filmagem e de fotografia e pela empresa " Engel &Võlkers " que ofereceu o equipamento informático e o softweare adequado (final cut)



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