11.4.10

Uma reflexão muito pertinente (também para a Museologia ) , por José Gabriel Pereira Bastos - Prof UNL/ FCSH



No caso vertente e para o que eu chamo ciência antropológica integrada (há quem lhe chame 'transdisciplinaridade'), há que reflectir que as estratégias de (1) estilhaçamento da questão por uma dezena de disciplinas (2) de proposta de redução de todas à biologia, (3) ou de criação de uma hegemonia de um das 'disciplinas' sobre todas as outras (a economia, o 'interesse', em Marx; a nova sociologia, em Giddens; a língua, em Lévi-Strauss e Lacan; o cérebro, na nova neurologia; a lógica binária, em Jakobsen; a ciência política, o 'poder', em Foucault, etc.) se esgotaram.


Esgotaram-se ao ponto de que, na minha visão, estamos a assistir à morte das ciências antropológicas 'modernas' (a começar pela Psicanálise, pela Antropologia, pela Sociologia e pela Ciência Política), á substituição da Política pela Filosofia Política e pela 'Ética' (Direitos do Homem, os cientistas sociais postos ao serviço da Governância, da Difusão de 'boas prácticas', etc.) e ao concomitante retorno da religião, da filosofia, do cognitivismo do século XVIII (Lpcke, Hume, etc.) e do ensaísmo 'pós-modernos' como forças sociais, bem como a uma regressão a perspectivas dos séculos XVIII- XIX, nomeadamente na vossa área (museologia, etc.), com o retorno do projecto 'universal' de 'descrição fenomenológica', de enciclopedização fragmentária, temática e categorial, bem como de museologização de todos os 'outros' (exteriores ou 'ultrapassados'), com completa cegueira para a acção do 'nós' WASP (White, Anglo-saxon, Protestant), agente organizado da Frente Anglo-Americana (suas ex-colónias brancas, do Canadá à Índia e à Austrália). que vem a conduzir desde os anos 40 a estratégia Imperial USA, isto é, a história da descolonização e da substituição da 'guerra fria' e, mais tarde, pelo 'choque das civilizações', que já nos deu duas Guerras Bush.

O que indicia que reentrámos numa nova fase de euforia celebratória do 'Ocidente' (um retorno do desacreditado 'evolucionismo'), a que chamámos 'globalização' + pós-modernidade (uma fase cheia de contradições que exigirão novas mudanças, fase esta de 'orgulho branco' que pode originar a emergência de um novo Nazismo, como a evolução da demografia política mostra).

Integrar implica questionar a estratégia 'burguesa' ('racional', temática) de estilhaçamento disciplinar, o que Marx, no século XIX e Freud, no século XX, fizeram. Partindo de um 'organizador' (a 'alienação', tanto em Marx como em Freud( atravessaram todas as didsciplinas relevantes. Quando morreu, Marx estava a integrar a antropologia e a biologia darwiniana no seu modelo, depois de cruzar a filosofia, a economia, a história, a ciência política e a teoria das artes. Quem leu a autobiografia de Freud (1925) e o texto anexo (A questão da análise leiga) percebe que esse era o projecto de Freud (não era um projecto clínico-terapêutico era um projecto de integração da teoria antropológica, compatível com o de Marx mas mais avançado, dada a integração de novas variáveis (inconsciente, narcisismo, processos identitários) que resolviam alguns dos impasses de Marx e levavam à revisão da ciência política. No seu modelo tridimensional, Marx articula a biologia com a economia (nível 1), a sociologia com a sua sociopatia política (nível 2), e a política com a alienação ideológica (nível 3), usando como Laboratório História politica. No seu modelo tridimensional, Freud articula a biologia com o desejo e com a acção delirante (fantasmática) (nível 1), a ambivalência face à razão e às relações estruturantes (microfamiliares e políticas) com os mecanismos de defesa do eu e com os delírios narcísicos (nível 2) e a repressão superegóica dos sujeitos com a criação de 'culturas' perspectivadas como delírios organizados de longa duração, capazes de criar esse equivalente colectivo dos Egos que são os Estados-Nações, os 'grandes homens' da Humanidade (nível 3), usando como Laboratório a articulação entre as histórias de vida e a história cultural.

Não remete para a 'vida que flui' dos pós-modernos (Deleuze, fluxos, rizoma; Appadurai, 'paisagens', etc.) mas para um modelo científico do drama antropológico que se questiona sobre o modo de contornar a alienação dos modelos transcendentais (a 'Razão', dos Iluministas; a 'Idéia', dos Românticos; a 'Sociedade', dos secularistas sociológicos, a 'Cultura', dos Hegelianistas, a 'posição de classe', de Marx; a 'Lingua' dos põs-saussurianos, o 'olhar do Outro', de G. H. Mead e de Goffman; o 'Simbólico', de Lacan, etc.) e ultrapassar o enorme desvio sistemático entre os Ideais e as Prácticas, nos indivíduos, nas relações mas sobretudo na política.

É uma questão muito simples mas também muito complexa, que os pós-modernos visam destruir com os seus fluxos celebratórios, lúdicos, artísticos e imateriais... alimentando a velha compensação da 'emancipação' individualista de alguma categoria conveniente... para deixar tudo na mesma, no campo das grandes questões antropológicas (a começar pela Fome, pela Pobreza, pela Marginalização, pelo Racismo e Xenofobia, pela ameaça do Retorno dos Nazismos e pela invizibilização dos extermínios sociopáticos em curso de inúmeros 'povos primitivos', etc.).

Tento ser sintético mas a questão é simples mas altamente complexa, como é de esperar se o projecto for a integração estrural-dinâmica da Antropologia Geral, o que vai contra a corrente da alienação pós-moderna.







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