2.2.09

À volta do sentido do museu ...


Qualquer projecto museológico terá que partir do estudo profundo do território e da auscultação das pessoas. Antes do museu existir é necessário identificar a problemática (o seu objecto social), suscitar a reacção, o espanto, a vontade das pessoas em participar. Pensar no modelo, no tipo de organização e na sua sustentabilidade. Qualificar a procura através de acções de disseminação do conhecimento, promover o debate, investir arduamente na elevação das expectativas dos cidadãos-clientes, é tarefa primordial.

O futuro dos museus está na participação. No diálogo entre pessoas e grupos que estão na area de impacto do museu, independentemente da relação e/ou vínculo que têm com a instituição museológica (profissionais, voluntários, parceiros, utilizadores, públicos). A participação é o processo-chave da Qualidade em museus. É através da participação que os museus ganham sentido, ganham espessura e geram valor. É a participação que torna o museu único e socialmente relevante. Por muito nobres que se nos afigurem as causas, nada muda se for imposto. As pessoas (julgo eu) têm que acreditar que podem contribuir para a mudança. Têm que se sentir comprometidas, ganhar confiança, crescer com o problema, ajudar a decifrá-lo e ganhar coragem (audácia/poder) para intervir na sua concretização. É fácil fazer um museu mas é muito difícil mantê-lo vivo e actuante. A Museologia do futuro terá que estar mais atenta aos processos, ao envolvimento das pessoas e ao empowerment por ele gerado, porque aí reside a sua força e razão de existência. A Museologia Social, processual, transforma dificuldades em oportunidades, admite a mudança, a pedagogia do erro e a contínua aprendizagem. É inclusiva e promove a qualificação das culturas e dos patrimónios. A mera "contabilidade de públicos" já não chega para aferir a qualidade de um museu. Uma competente gestão do conhecimento e da informação é hoje fundamental para qualquer organização, incluindo os museus. A noção de qualidade em museus rege-se hoje por parâmetros que estão muito para além de um somatório de "boas qualidades". A qualidade total em museus mede-se pela qualidade da participação e pelos resultados para a comunidade (a satisfação das pessoas e a inclusão). A exemplo de muitas outras organizações com idênticas missões e valores, os museus terão de se munir das necessárias ferramentas avaliativas com o objectivo medir e comparar os impactos da sua acção na comunidade. Estes processos são uma construção tão (ou mais) importante como o produto final (exposição ou outro), por muito espectacular que este se nos afigure. Na Museologia social (com carácter processual) fazer o caminho é tão importante como chegar à meta. Os processos de identificação e descoberta, aproximam as pessoas e reforçam as comunidades de interesses, centradas sobre o património. A inclusão do diferente e dissonante gera inovação. produz efeito nos procedimentos de natureza material e imaterial, reconfigura o modelo de comunicação em museus. A participação efectiva permite trabalhar a singularidade, a especificidade das culturas, os modos de ser e agir de pessoas de diferentes gerações, origens e condições. O importante é a persistência no terreno e o enriquecimento das suas leituras. É do terreno que nasce toda a acção sólida e consistente. O importante é criar laços entre as pessoas, derrubar barreiras físicas, intelectuais e psicológicas, promover as acessibilidades, trabalhar com deficientes, imigrantes, desempregados, mulheres, crianças, grupos de risco. Criar rotinas de estudo, hábitos de pensar e decidir em conjunto. Esse é o campo onde germina a mudança e cresce a cidadania. Os museus sustentáveis, estão ancorados no terreno, na proximidade, assentes em fortes valores humanistas, com uma visão arrojada de futuro.




Isabel Victor


Chefe da Divisão de Museus da Câmara Municipal de Setúbal

Docente no mestrado em Museologia da Universidade Lusófona de Lisboa

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