11.1.09

Museu do Mar, na Carrapateira


O Museu do Mar e da Terra da Carrapateira, situado na aldeia que lhe dá o nome, no concelho de Aljezur, foi concebido e realizado conjuntamente com a autarquia, a população, investigadores, museólogos e outros profissionais.
O objectivo é colocar a museologia contemporânea ao serviço da promoção de uma região, a Costa Vicentina, do seu património natural e cultural.





Quem vem de Aljezur por aquela estrada serpenteada que atravessa essa serra prestes a confrontar-se com o mar, encontra primeiro a Bordeira incrustada nesse sucalco de feição iminentemente rural e quase a não deixar que a aldeia se confronte directamente com o mar.
Se continuar na mesma direcção e com novas curvas pelo caminho, começa, ao longe, a ver a Carrapateira que, lá do alto da sua colina, parece funcionar como uma espécie de sentinela, sempre em estado de alerta, diante da vastidão daquele mar.

É do cimo dessa encosta, para que a contemplação seja melhor sobre a aldeia, sobre o campo e sobre o mar, que o museu se decidiu edificar. E, por isso, logo de longe se começa a ver porque também ele foi concebido para espreitar a estrada quando esta começa a entrar na Carrapateira. Sorte diferente tem quem vem dos lados de Sagres. Sem qualquer ângulo de visão, ter-se-á de perguntar, já dentro da Carrapateira, onde é o museu da terra e do mar. E depois da estrada contornar a aldeia, ainda antes de sair, ter-se-á de subir aquela íngreme encosta até, praticamente, atingir o topo da Carrapateira e entrar naquele museu que faz questão de nos oferecer um amplo campo de visão em que a praia também não poderia faltar.



Num percurso que utilizou os dois itinerários, fomos ao encontro do museu da Carrapateira no dia da sua inauguração. O sol fazia-se sentir e, naquelas paragens sossegadas era difícil imaginar que se estava no dia do trabalhador. Muitos eram os que, depois do esforço daquela subida, faziam questão de descansar antes de lá entrar. Após esse compasso de espera, com alguma decisão penetravam no seu interior constituindo uma pequena multidão que ia percorrendo e admirando tudo o que por lá se encontrava. Mas, primeiro, teve-se que assistir à cerimónia oficial que, com palavras a preceito, quis abrir aquele espaço que pretende retratar a vida que, ao longo dos anos, deu corpo áquela povoação a viver em estreita ligação entre o campo e o mar. Por isso, como aquele espaço museológico quer retratar a vida de uma comunidade como a da Carrapateira, teria de se debruçar sobre a terra e o mar. Embora, à partida, a componente etnográfica fosse de privilegiar, ainda é algo deficitária e a exigir um dinamismo maior na recuperação e reconstituição de muitos pedaços da história de vida daquela povoação. Mas, em compensação, um conjunto colorido, em que a fotografia sobressai, vem dar áquele museu a alegria e a vitalidade de uma vida que se construiu com a terra e o mar por pano de fundo. E, por isso, a par de quadros de vida da labuta diária, a paisagem rural e marinha, patente nesses quadros coloridos, acaba por deslumbrar e por nos revelar recantos e pormenores difíceis de imaginar. É assim a costa vicentina com as gentes que a habitaram e que a continuam a enriquecer com a sua vida diária nessa relação entre o homem e a natureza que é factor de valorização. Esse enriquecimento tem acontecido e continua a acontecer nesses lugares onde o tempo praticamente parou mas, em contrapartida, onde ainda muito pouco se adulterou. E é nestes espaços do interior do Algarve onde a natureza ainda se respira e o homem pode viver nessa relação de amizade e de respeito com o seu habitat que estes espaços começam a emergir como expressão de uma vivência que, mesmo nos dias de hoje, continua a ter a sua razão de ser.Quanto ao espaço em si, com dificuldades de acesso para quem sente dificuldade em subir, apresenta-se como uma varanda sobre a terra e o mar dando expressão e todo o sentido à designação do próprio museu. No seu interior, o itinerário, com vários planos, vai-nos levando a contactar, mais à base da imagem, com parte da sua fauna e da sua flora. Também alguns dos seus usos e costumes se podem admirar com o intuito de dar a conhecer as tradições que fazem parte de povoações como a Carrapateira. No desenho desse percurso, chega-se ao fim com uma imagem do que é a vida, não de uma aldeia perdida, mas de pedaços de enredos de um Portugal dotado de uma beleza invulgar e que é urgente recuperar. E esta recuperação da vida, múltipla e facetada, que atravessa este parque natural da costa vicentina teria que passar por valores que viessem valorizar as suas gentes, os seus costumes, as suas tradições e, sobretudo, o continuar da sua relação com a terra e o mar. Mas para que este património natural se continue a preservar é fundamental que haja incentivos, que a qualidade de vida dos seus naturais seja uma realidade e que se constitua um conjunto de motivações para que as populações, mesmo as suas camadas mais jovens, sejam convidadas a ficar, a continuar, com novas formas e outros olhares, a vida dos seus antecessores. E como o conhecimento, a auto-estima, a recuperação e a interpretação da nossa memória é a melhor motivação, estes pólos museológicos, em sentido dinâmico e interactivo, são a melhor forma de incentivar, de divulgar e de valorizar estes espaços. É por isso que o museu da terra e do mar da Carrapateira, mais do que um museu pontual na Costa Vicentina, deveria fazer parte de uma rede a criar ao longo deste espaço natural como elemento de valorização, de enriquecimento e da divulgação de um património de uma riqueza que já não se começa a ver. Mas na falta dessa rede, o da Carrapateira constituiu um passo e, quem sabe, uma ambição e um “elan” para essa rede ou, então, para iniciativas do género.



in " Correio de Lagos "

1 comentário:

Anónimo disse...

Visitei o museu, parabéns aos seus mentores, iniciativas destas são muito importantes para a história e identidade de um povo ser vista por quem não a conheceu.